nautian ([info]nautian) wrote,

Escrevi este texto uns dias depois do 11 de Março de 2004, infelizmente continua muito actual...

 Nunca acreditei no Pai Natal. Acreditava noutras coisas. A minha avó contava-me histórias de príncipes e princesas, e a magia invadia-me deste modo ao ouvir a sua voz doce, e ao mergulhar na sua gargalhada eterna. Um dia deu-me a sua velha máquina de escrever, e abriu-me a porta para outros mundos. A minha outra avó deixava-me rapar as latas de leite condensado e dizia-me que as palavras, por vezes, magoam mais do que os gestos. Quando cresci entendi o que ela queria dizer, e os seus olhos brilhantes deram-me asas e ensinaram-me a voar. Com a avó que não conheci, aprendi de cor a força do amor, aprendi que a vida é muito curta, e temos que aproveitar cada instante para estarmos com quem gostamos, e viver intensamente.
O meu avô contava-me histórias de caçadores e coelhos, e eu sentada no seu colo desejava que o coelho se salvasse. Contava-me alguns contos de Oscar Wilde e mais tarde encontrei-os num livro. O meu outro avô levava-me para as suas memórias no mato de Moçambique, falava-me das suas caçadas, das suas pescarias, e a sua pele queimada pelo sol fazia-me sentir o cheiro da terra, e despertava em mim uma saudade de algo que eu não tinha vivido. O avô que não conheci foi-me trazido pelas fotografias, pelas histórias do meu pai, e dele herdei esta inquietude, esta vontade em partir, este olhar que está sempre longe.
Lembro-me muitas vezes deles, de um modo ou de outro fazem parte de mim. Nestes dias tenho pensado muito neles, e sinto saudades. Às vezes tento encontrá-los nas pessoas que vivem perto de mim. Há momentos em que mergulho na tua gargalhada como mergulhava na da minha avó, tem a mesma intensidade, é eterna como a dela. Poucas pessoas se sabem rir como vocês os dois, e eu sinto vontade em saltar para o teu colo, ouvir as tuas histórias e adormecer ao som de um teclado.
Pensar na infância, naqueles tempos em que me sentia protegida, faz-me voltar acreditar.
Tantas mortes nestes últimos dias. As pessoas não sabem em que direcção caminhar, sentem o perigo, mas não o conseguem evitar, como o coelho que fugia do caçador na história do meu avô. Sabemos que se vai voltar a repetir, e temos medo de sermos apanhados no meio, ou pior do que isso, que apanhem alguém de quem gostamos. Dia após dia tentamos voltar à normalidade, mas já não há inocência que resista a tudo isto. E nós todos estamos no meio de uma guerra que não conseguimos evitar no momento certo, e agora não há meio de a parar. Temos que nos levantar e sentir que ainda vale a pena. Perder a esperança seria a derrota total.

 

Photo by Gasior

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  • 5 comments

[info]lapisdecor

July 13 2005, 01:48:39 UTC 6 years ago

:-)

*

[info]nautian

July 24 2005, 11:53:00 UTC 6 years ago

******

Deleted comment

[info]nautian

July 24 2005, 11:53:20 UTC 6 years ago

:((((

[info]life__

July 13 2005, 12:58:04 UTC 6 years ago

This is last comment...
***

[info]nautian

July 24 2005, 11:53:36 UTC 6 years ago

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